
A família Kyobashi se mudou para um novo conjunto habitacional, construído em uma cidade planejada, esperando um futuro brilhante na nova casa. O tempo passou e junto com ele a esperança do sonho familiar se tornar realidade. Agora os Kyobashi interpretam a família ideal enquanto cada membro se esconde na sua realidade secreta. Com suas relações caseiras cada vez mais desfragmentadas, cada um agora busca um espaço dentro de si para uma reconciliação.

Esse é um filme de família... e mesmo tratando basicamente dos problemas mais sombrios é fácil visualizar a cotidiana realidade disfuncional do mundo doméstico. Bem, não faltam filmes sobre o assunto, mas o toque de Toshiaki é bem peculiar e faz com que o tema saia da mesmice e se torne uma comédia sinistra eficientemente analítica. Grande parte do sucesso na transferência do livro para as telas deve-se ao essencial e genial trabalho da cinematografia, à simbiótica trilha sonora e à atuação de Kyôko Koizumi.
Logo no começo a cinematografia prende a atenção, replicando o balanço dos vasos de plantas suspensos, a câmera adianta a instabilidade e fragilidade que segura os Kyobashis unidos. Eriko (Kyôko Koizumi) aparenta ser a esposa perfeita, sempre sorridente, preparando e arrumando tudo em casa, cuidando do seu jardim suspenso, mas guarda grande ressentimento da sua mãe pela infância alienada que levou e revela uma personalidade bem maliciosa, distante da persona austera que tenta sustentar. Os irmãos e anjinhos domésticos Takashi (Itsuji Itao) e Mana (Anne Suzuki) são na verdade à-toas e matam aula constantemente. Mana senta na escadaria do shopping ou transa a tarde inteira. Takashi fica andando sem rumo até o horário de voltar para casa. Ko (Masahiro Hirota), o marido, leva uma vida “estressante” devido a nova e controladora amante.
Nessa roda de meias verdades ou mentiras completas o ressentimento entre as partes é crescente, algo que o filme consegue explorar e expor muito bem. Do começo ao fim o que fica é um agonizante clima de ódio contido, que poucas vezes se manifesta na tela e mesmo assim em forma de um desejo reprimido imaginado pelos personagens. O filme não toma um rumo ou um ritmo diferente do inicial, ele mantém o mesmo tempo e segue ilustrando as facetas de cada um e como suas atitudes acabam trazendo consequências para os outros familiares. E como a capacidade para a falsidade da família Kyobashi só é comparável a curiosidade com a vida do outro, o desfecho de tanto balançar vai se desenhando quando os segredos acabam sendo descobertos.
Toshiaki, por ironia do destino, também foi pego em um de seus segredinhos e acabou sendo preso por posse de entorpecentes, salvo engano cerca de 4g de estimulantes. Como o crime é sério no Japão, o cineasta está afastado de suas atividades focais desde de 2005, logo após o termino de “Hanging Garden”. Até que o diretor volte e se supere, esse filme continua sendo seu ápice e isso dentro de um repertório consistente na qualidade. “Hanging Garden” é audacioso e apesar de ser bem japonês não se concentra nas idiossincrasias da família japonesa, mas retrata o tema de forma universal.

























